quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Pesquisadores identificam marcadores genéticos que caracterizam a infecção causada pelo vírus Chikungunya


O estudo foi feito por pesquisadores da USP e abre caminho para a busca de tratamentos para a doença.


Foto:  Marcos Santos
Um estudo recentemente publicado na revista PLOS Pathogens foi capaz de identificar a assinatura gênica da infecção causada pelo vírus Chikungunya, que é transmitida ao homem por picadas do mosquito Aedes aegypti. Isso significa que os cientistas encontraram o conjunto de genes cuja expressão é alterada pela interação com o vírus, ajudando a desvendar o mecanismo da doença. O estudo foi coordenado por Helder Nakaya, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), e teve colaboração do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e do Instituto Butantan, entre outros parceiros.

Pesquisadores do ICB-USP, coordenados pelo professor Paolo Zanotto, têm estudado o Chikungunya desde 2014, quando o vírus foi identificado pela primeira vez no Brasil – esse trabalho foi a terceira publicação do grupo sobre o tema. Os cientistas analisaram e compararam amostras de pacientes infectados pelo Chikungunya com amostras de pacientes saudáveis, de pacientes que tiveram dengue e de pacientes com artrite reumatoide.

Segundo o pesquisador Marielton dos Passos Cunha, do ICB-USP, o objetivo do estudo era encontrar um marcador característico da infecção, que a diferenciasse das outras condições semelhantes. “Foram utilizadas ferramentas moleculares e computacionais, como técnicas de análise de redes complexas e aprendizado de máquina”, explica. A comparação com dengue foi necessária porque as duas doenças são muito semelhantes: ambas provocam febre alta, dor no corpo e manchas na pele. No entanto, o sintoma causado pelo vírus Chikungunya que o diferencia de outros arbovírus, é a dor nas articulações (artralgia) – daí a importância de analisar amostras de pacientes com artrite reumatoide.

Com a assinatura gênica da doença, os pesquisadores mapearam o papel que esse conjunto de genes desempenha nas células e a sua importância no combate ao vírus. “O trabalho abre caminho para o desenvolvimento de fármacos para o Chikungunya, pois faz uma descrição da doença a nível molecular – ou seja, identifica o que é único daquela condição. A partir disso, é possível fazer uma busca mais aprofundada por tratamentos”, diz Cunha.

Nos próximos passos da pesquisa, os especialistas buscam entender como o vírus se espalhou e melhorar o seu diagnóstico sorológico, para que não se confunda com outras arboviroses, como os vírus Dengue e Zika. Esses trabalhos serão desenvolvidos no ICB e também na Plataforma Científica Pasteur-USP, inaugurada em julho deste ano. A plataforma é focada no estudo de patógenos para a prevenção de epidemias.

Histórico – A Chikungunya é uma doença que não possui vacina e o tratamento é feito apenas para amenizar os sintomas, que podem persistir por até 15 dias e, em casos raros, provocar a morte. Entre janeiro e agosto de 2019, foram registrados 110.627 casos prováveis da doença no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. As regiões Norte e Nordeste são as mais afetadas.

Em 2014, o vírus foi identificado em dois locais distintos do país: no município de Oiapoque (Amapá) e em Feira de Santana (Bahia). O pesquisador Marielton dos Passos Cunha esclarece que o vírus é o mesmo, mas com dois genótipos diferentes co-circulando. Um deles veio de Angola, na África, e o outro da América Central. “Ele pode circular facilmente em qualquer cidade do país, porque todas as pessoas são suscetíveis e quase todas as cidades apresentam a circulação do seu principal vetor, o Aedes aegypti”.


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