segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O que é a Raiva ?


Criado em 24/11/14  -  Atualizado em 22/08/18


Conceito:

A raiva, também conhecida como hidrofobia, é uma doença infecciosa aguda que leva à morte.  Causada por um vírus, é caracterizada por sintomatologia nervosa que acomete animais e seres humanos.

Pode acometer todas as espécies de mamíferos, incluindo o homem, sendo seu prognóstico fatal em praticamente todos os casos.

É uma zoonose (antropozoonose) que tem como hospedeiro, reservatório e transmissor, o animal que, dependendo da situação, transmite a doença aos humanos através da mordedura, arranhadura ou lambedura.

O cientista Louis Pasteur conseguiu isolar o vírus em 1881, inoculando coelhos por via intracerebral, e preparou a primeira vacina antirrábica em 1884.


Agente etiológico:





O agente infeccioso é o vírus da raiva, da família Rhabdoviridae e pertencente ao gênero dos Lissavirus.






Reservatório

O vírus rábico pode infectar todos os mamíferos. Didaticamente podemos dividir a doença em ciclos de transmissão conforme os principais reservatórios da raiva encontrados no Brasil, a seguir:

-  ciclo aéreo, que envolve os morcegos hematófagos e não hematófagos;

-  ciclo rural, representado pelos animais de produção;

-  ciclo urbano, relacionado aos cães e gatos;

-  ciclo silvestre terrestre, que engloba os saguis, cachorros do mato, raposas, guaxinim, macacos entre outros animais selvagens.



Modo de transmissão

A transmissão da raiva se dá pela penetração do vírus contido na saliva do animal infectado, principalmente pela mordedura, arranhadura, lambedura de mucosas. O vírus penetra no organismo, multiplica-se no ponto de inoculação, atinge o sistema nervoso periférico e, posteriormente, o sistema nervoso central (sentido centrifugo). A partir daí, dissemina-se para vários órgãos e glândulas salivares, onde também se replica (sentido centrípeto) e é eliminado pela saliva das pessoas ou animais enfermos. 

Existe, na literatura, o relato de oito casos de transmissão inter-humana por meio de transplante de córnea. Nos Estados Unidos, em 2004, foram registrados quatro casos de raiva humana referentes a indivíduos que receberam órgãos doados (fígado, dois rins e artéria ilíaca) de um indivíduo que morreu por infecção pelo vírus da raiva. O mesmo ocorreu na Alemanha, em 2005, com três indivíduos após transplante de órgãos (pulmão, rim e pâncreas) de um indivíduo que faleceu devido àquela infecção. Em ambos os países, os doadores dos órgãos não tiveram suspeita diagnóstica de raiva. Possibilidade remota de transmissão sexual, respiratória, digestiva (em animais) e vertical também são relatadas.


Sintomas nos animais:


A raiva pode apresentar vários sinais clínicos, tornando-se difícil diferenciar de outras síndromes nervosas aguda progressivas. Os sinais podem incluir alterações de comportamento, depressão, demência ou agressão, dilatação da pupila, fotofobia (medo do claro), incordenação muscular, mordidas no ar, salivação excessiva, dificuldade para engolir devido à paralisia da mandíbula, déficit múltiplo de nervos cranianos, ataxia e peresia dos membros posteriores progredindo para paralisia. 

Neste estágio o animal para de comer e beber. O estágio paralítico pode durar de um a dois dias, seguido de morte por parada respiratória. O período de incubação, a partir da mordida até o início dos sinais clínicos, é variável, podendo ser de duas semanas a seis meses. Mas a partir do momento em que sejam vistos os sinais neurológicos, a doença é rapidamente progressiva, com a morte ocorrendo dentro de sete dias, na maioria dos animais. Mordidas na face, cabeça e pescoço resultam em períodos de incubação mais curto.


Sintomas nos humanos:

O homem recebe o vírus da raiva através do contato com a saliva do animal enfermo. Isto quer dizer que, para ser inoculado, não precisa necessariamente ser mordido - basta que um corte, ferida, arranhão profundo ou queimadura em sua pele entrem em contato com a saliva do raivoso. Independente da forma de penetração, o vírus se dirige sempre para o sistema nervoso central. O tempo de incubação, porém, varia com a natureza do vírus, o local da inoculação e a quantidade inoculada. Se o ponto de contágio tiver sido a cabeça, o pescoço ou os membros superiores, o período de incubação será mais breve, porque o vírus atingirá a região predileta com maior rigidez. A partir daí, o vírus migra para os tecidos, mas sobretudo para as glândulas salivares, de onde é excretado juntamente com a saliva. 

Tanto no homem como nos animais, quando os sintomas da moléstia se manifestam, já não há mais cura possível - a morte é certa. Assim, todo tratamento tem que ser feito durante o período de incubação, quando o paciente não apresenta sintomas e não manifesta queixas. 

No homem, o primeiro sintoma é uma febre pouco intensa (38 graus centígrados) acompanhada de dor de cabeça e depressão nervosa. Em seguida, a temperatura torna-se mais elevada, atingindo 40 a 42 graus. Logo a vítima começa a ficar inquieta e agitada, sofre espasmos dolorosos na laringe e faringe e passa a respirar e engolir com dificuldade. Os espasmos estendem-se depois aos músculos do tronco e das extremidades dos membros, de forma intermitente e acompanhados de tremores generalizados, taquicardia, parada de respiração. 

Qualquer tipo de excitação pode provocá-los (luminosa, sonora, aérea, etc.). O homem, ao contrário do cão, torna-se hidrófobo (sofre espasmos violentos quando vê ou tenta beber água). Frequentemente experimenta ataques de terror e depressão nervosa, apresentando tendência à vociferação, à gritaria e à agressividade, com acessos de fúria, alucinações visuais e auditivas, baba e delírio. 

Esse período de extrema excitação dura cerca de três dias, vindo, a seguir, a fase de paralisia, mais rápida e menos comum nos homens do que nos animais. É então que se nota paralisia flácida da face, da língua, dos músculos da deglutição, dos oculares e das extremidades dos membros. Mais tarde, a condição pode atingir todo o corpo. 

Às vezes, a moléstia pode manifestar evolução diferente: surge com a paralisia progressiva das extremidades e logo se generaliza. Mas, seja qual for o tipo, a raiva sempre apresenta uma evolução fatal para o paciente.


Medidas de prevenção:

-  Vacinar anualmente cães e gatos; 
-  Não se aproximar de cães e gatos sem donos;
-  Não mexer ou tocar quando os mesmos estiverem se alimentando ou dormindo;
- Nunca tocar em morcegos ou outros animais silvestres diretamente, principalmente quando estiverem caídos no chão ou encontrados em situações não habituais.


O que fazer quando agredido por um animal, mesmo se ele estiver vacinado contra a raiva

- Lavar imediatamente o ferimento com água e sabão;
- Procurar com urgência o Serviço de Saúde mais próximo;
- Não matar o animal, e sim deixá-lo em observação durante 10 dias, para que se possa identificar qualquer sinal indicativo da raiva;
- O animal deverá receber água e alimentação normalmente, num local seguro, para que não possa fugir ou atacar outras pessoas ou animais;
- Se o animal adoecer, morrer, desaparecer ou mudar de comportamento, voltar imediatamente ao Serviço de Saúde;
- Nunca interromper o tratamento preventivo sem ordens médicas;
- Quando um animal apresentar comportamento diferente, mesmo que ele não tenha agredido ninguém, não o mate e procure o Serviço de Saúde.


A situação da raiva no Brasil

Com a intensificação das ações de vigilância e controle da raiva canina e felina nos últimos 30 anos, o Brasil alcançou significativa redução nas taxas de mortalidade por raiva humana, com o predomínio de casos em caráter esporádicos e acidentais (Figura 1).


Figura 1 - Taxa de mortalidade de raiva humana por tipo de animal agressor (1986 – 2017).

 Fonte: SVS/MS. Atualizado em 16/03/2018



No período de 2010 a 2017, foram registrados 25 casos de raiva humana, sendo que em 2014, não houveram casos.  Desses casos, nove tiveram o cão como animal agressor, oito por morcegos, quatro por primatas não humanos, três por felinos e em um deles não foi possível identificar o animal agressor.  

Em 2015, os dois casos de raiva humana no Brasil, ocorreram na Paraíba, transmitido por gato, identificação variante de morcego, e o outro no Mato Grosso do Sul, pela variante 1, típica de cães. Esse caso no Mato Grosso do Sul, ocorreu em razão da epizootia canina nos municípios de Corumbá e Ladário, a partir da introdução de animal positivo pela fronteira com a Bolívia. Em 2016 foram notificados dois casos de raiva humana, um em Boa Vista/RR, transmitido por felino infectado com a variante 3 (transmissão secundária) e um caso em Iracema/CE por morcego (Desmodus rotundus), também pela variante 3. 

Em 2017, foram registrados seis casos de raiva humana, todos pela variante 3 de morcegos hematófagos (Desmodus rotundus), sendo que cinco deles em razão de agressões diretas por morcegos - três deles ocorreram em adolescentes de uma mesma família, residentes em uma reserva extrativista no município de Barcelos, estado do Amazonas, os outros dois casos ocorreram na Bahia e Tocantins.  O sexto caso se ocorreu em Pernambuco, após agressão de um gato de rua infectado com a variante 3, demonstrado a importância dos animais doméstico como transmissores secundários da raiva (“spillover”). 

As campanhas anuais de vacinação de cães e gatos no Brasil associadas as demais medidas de controle, como a profilaxia antirrábica humana para pessoas expostas ao risco de contrair raiva, resultaram em significativa redução de casos de raiva humana. Em cães, consequentemente, também ocorreu redução de casos com interrupção na circulação das variantes 1 e 2 do vírus da raiva, consideradas de maior potencial de disseminação entres cães e gatos nas áreas urbanas. Nesta série histórica, no ano de 2008 não houve casos de raiva humana transmitida por cão.

O resultado das ações de vacinação antirrábica canina e felina resultaram num grande ganho para a saúde pública, permitindo que o país saísse de um cenário de mais de 1.200 cães positivos para raiva e uma taxa de mortalidade de raiva humana por cães de 0,014/100 mil habitantes em 1999, para um cenário de 13 casos de raiva canina e nenhum caso de raiva humana por cães em 2017.



Figura 2 - Taxa de mortalidade raiva humana transmitida por cão/ Nº de casos de raiva canina (1999 a 2017). 


Fonte:SVS/MS. Atualizada em 16/03/2018.


Deve-se salientar que desde 2016 os casos de raiva em cães e gatos têm sido identificados como variante 3 de morcegos hematófagos e da variante compatível com canídeos silvestres. Em 2015, na fronteira do Brasil com a Bolívia, ocorreu uma epizootia canina nos municípios de Corumbá e Ladário e um óbito humano, transmitido por cão pela variante 1, que circula na Bolívia.


Profilaxia Antirrábica Humana

A garantia da profilaxia adequada e oportuna é um desafio para a vigilância da raiva no Brasil. Em 2016, em razão de atrasos nas entregas dos imunobiológicos, os estados priorizaram as atividades de profilaxia pós-exposição, resultando numa queda no número de notificações de pré-exposição. No ano de 2017, a partir da regularização das entregas da vacina e frente as evidências apresentadas, a SVS reviu as orientações referentes ao esquema de vacinação antirrábica humana pós-exposição, com a alteração de 5 doses de vacina para 4 doses, conforme a Nota Informativa nº 26-SEI/2017-CGPNI/DEVIT/SVS/MS, de 17 de julho de 2017.


Nos anos de 2007 a 2017, 84% das mais de 5 milhões de notificações de atendimento profilático antirrábico humano pós-exposição, foram em decorrência de agressões envolvendo cães domésticos, e apenas 0,67% por morcegos. Considerando o cenário epidemiológico do Brasil, especialmente em relação a raiva humana, é necessário uma valorização da observação de cães e gatos agressores como medida de vigilância, antes da indicação de vacina/ soro + vacina como medida profilática imediata.



Fontes:     FIOCRUZ      Instituto Pasteur (SP)      Ministério da Saúde       Saúde Animal  

5 comentários:

  1. Gostaria de saber quando haverá vacinação gratuita aqui em Niterói.

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    1. Boa tarde Miriam !

      A data provável para a campanha de vacinação antirrábica animal em Niterói é 07 de outubro. No entanto, o Centro de Controle de Zoonoses realiza a vacinação antirrábica animal gratuita durante todo o ano, de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h, em seus postos fixos. Veja os endereços no link abaixo:

      http://cczniteroirj.blogspot.com.br/2016/06/postos-fixos-de-vacinacao-antirrabica.html

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  2. Bom dia, gostaria de saber se tem algum posto de vacinacao de raiva fora de campanha de vacinacao?

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  3. Boa Tarde!
    Gostaria de saber se tem algum posto de vacinaçao de raiva fora do periodo de campanha e onde fica localizado?

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    1. Bom dia Agnys !

      Sim. O Centro de Controle de Zoonoses também conta com dois postos permanentes de vacinação antirrábica animal gratuita, que funcionam de segunda à sexta-feira, das 8 às 17h, nos seguintes locais:

      Parque Prefeito Ferraz /Campo de São Bento – Entrada pelo portão 1, Rua Lopes Trovão, s/nº Icaraí (ref.: Torre Mirante)

      Horto Florestal do Barreto /Parque Palmir Silva – Rua Dr. Luiz Palmier s/nº Barreto (ref.: lado oposto ao nº 957)

      Veja o mapa dos locais no link abaixo:
      http://cczniteroirj.blogspot.com.br/2016/06/postos-fixos-de-vacinacao-antirrabica.html

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