terça-feira, 5 de junho de 2018

Especialistas debatem situação epidemiológica da chikungunya


Uma Sala de Situação em Saúde dedicada a conhecer a situação epidemiológica da chikungunya no Brasil e no estado do Rio de Janeiro reuniu (23/5) representantes do Ministério da Saúde (MS) e da Secretária Estadual de Saúde, além de profissionais de diversos municípios fluminenses. O encontro, que abordou ainda os desafios no manejo clínico de adultos e crianças, foi realizado pela Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência no Salão da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz). O evento é o primeiro de uma série de discussões a respeito, uma vez que, segundo o coordenador Rivaldo Venâncio, “o conhecimento sobre arboviroses ainda está em construção”.

Os dados apresentados pelo MS relativos a 2016, ano do ápice do surto no Brasil, mostram 303,4 mil casos de chikungunya notificados (foto: Peter Ilicciev)

Emerson Araújo, da Coordenação Geral de Laboratórios de Saúde Pública (CGLAB) do MS, apresentou dados sobre a legislação, estrutura e financiamento do Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública (Sislab). O Sistema tem entre suas atribuições de estimular parcerias entre laboratórios e centros formadores de recursos humanos, visando à melhoria da qualidade do diagnóstico laboratorial, o que é particularmente importante em relação a doenças pouco conhecidas como a chikungunya.

Os dados apresentados pelo MS relativos a 2016, ano do ápice do surto no Brasil, mostram 303,4 mil casos de chikungunya notificados e 85,5 mil solicitações de diagnósticos laboratoriais específicos no âmbito do Sislab. Os dados mais atuais (18ª semana epidemiológica de 2018) indicam 40,8 mil casos notificados em todo país, sendo 33,8 mil casos prováveis (casos notificados suspeitos menos os descartados) e 20,2 mil confirmados, sendo que a grande maioria destes (79,9%) obteve confirmação clínico-epidemiológica.

Araújo afirmou que um dos maiores desafios para implantação da estratégia de gestão integrada das arboviroses é a clínica dos pacientes “que é muito semelhante nas diversas arboviroses, o que é agravado quando as requisições de exames chegam ao laboratório sem evidência ou informação clínica sobre os pacientes, é difícil chegar a um diagnóstico conclusivo para iniciar a terapêutica correta quando for o caso”.

A situação no Rio de Janeiro foi apresentada por Mario Sergio Ribeiro, da Superintendência de Vigilância Epidemiológica e Ambiental, que trouxe dados relativos a 2018, apurados no final de maio. Apenas de 10 a 22 de maio o número de casos prováveis subiu de 8 mil para 11 mil, tendo sido confirmados 6,5 mil (1,4 mil laboratorialmente), com três óbitos registrados. Além da capital, as áreas mais afetadas são a Região Metropolitana II (Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Rio Bonito, etc.) e Noroeste Fluminense (Itaperuna, Santo Antônio de Pádua, Bom Jesus do Itabapoana, etc.).

Ribeiro fez um alerta para a possibilidade de aumento de casos na Metropolitana I (Baixada Fluminense), que faz limite com a zona oeste da capital onde existe uma alta incidência de chikungunya. Em relação à taxa de internação, os maiores índices estão nos dois extremos, menores de 15 anos e maiores de 80, respectivamente 1 e 1,3 por 100 mil habitantes, e em todas as faixas etárias a maior incidência é em mulheres.

A Secretaria tem realizado reuniões periódicas de seu GT Arboviroses para atualização do Plano de Contingência, além de promover capacitações regionais para diagnóstico e tratamento e vistas técnicas aos municípios para apoio às ações de vigilância da Chikungunya. Ribeiro listou entre os recursos necessários para o enfrentamento da epidemia investimento em logística e material gráfico para as capacitações, além de medicamentos específicos, inseticidas, larvicidas equipamentos adequados para sua aplicação, além kits para os exames no Lacen.

A pediatra do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Suyen Villela, falou sobre casos de chikungunya em recém-nascidos. Os atendimentos relatados por Suyen aconteceram de 2016 a 2018 no Hospital São Francisco (Niterói), onde ela também trabalha. Foram sete casos nesse período, todos muito graves e com longos períodos de internação, com muito sofrimento para as crianças. Só a primeira chegou a óbito, pois chegou em estado muito avançado da doença, nos demais casos, após muito esforço da equipe de saúde, as crianças foram salvas. A experiência serve de alerta para a necessidade de notificação de mães que tiveram a chikungunya no periparto devido ao risco de transmissão vertical, que pode trazer riscos tão grandes quanto a zika e o Dengue.

No encerramento, o coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, Rivaldo Venâncio, analisou a possibilidade de ocorrência de uma epidemia da chikungunya. Para ele, “analisando a dinâmica de evolução das arboviroses, tudo indica que sim”. Ele a firmou que temos todos os macrodeterminantes necessários para isso, como elevadas temperaturas e umidade relativa do ar, alta densidade populacional, urbanização desordenada, coleta de lixo deficiente, fornecimento de água irregular, violência urbana. Para ele, o setor saúde não tem governança sobre esses aspectos, “o Brasil vive um verdadeiro apartheid social, que não será resolvido com medidas demagógicas e milagrosas”.

Da mesma forma, também estão colocados os microdeterminantes da epidemia. Ele citou um alto percentual de pessoas susceptíveis aos vírus circulantes, a abundância de criadouros do mosquito transmissor, altos índices de infestação predial e a densidade de fêmeas do vetor. Ele sugere medidas para o enfrentamento da chikungunya, como a capacitação de todas as categorias envolvidas na atenção aos doentes, organizar a rede de atenção com base em um protocolo clínico atualizado e a utilização e aprimoramento dos materiais já disponíveis, como os manuais de manejo clínico do MS e outras publicações. Para Rivaldo, “se não podemos evitar a epidemia no Rio de Janeiro, é possível fazer alguma coisa para amenizar seu impacto”.


Fonte:  Fiocruz


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